sábado, dezembro 31, 2005

Vós


Foto David Winston

O mais simples. O que verdadeiramente não se compra nem se vende. O que não tem tempo nem espaço nem categoria. O que é de todos. O que nós criamos para todos. Só esse. O Amor.

Para o ano, o mundo vai ser perfeito!

Não tenho tempo para estar aqui, que tenho de me ir pintar, arranjar toda, abrilhantar, aperfeiçoar o excelente - que culpa tenho eu de ser a primeira maravilha da criação?!

Minhas queridas meninas, este foi um ano absolutamente tempestuoso. A quem não tem um blog, só posso desejar uma coisa: arranjem um e viciem-se nele. É muito melhor que o tamagochi e permite-nos muito mais gargalhada que qualquer homem, com a vantagem de não dar roupa para lavar nem passar a ferro nem se meter em cima de nós quando não nos apetece nada, ou pior, não aguentar mais, ai, já não aguentar mais, quando têm de aguentar tudo.
Saindo deste tema sempre tão profícuo: se são infelizes, como suponho que sejam todos, excepto o meu noivo Luís, habituem-se. A infelicidade é o máximo de felicidade que vamos ter; portanto, meninas, insistamos na transformação de outros erros da natureza: se esta nos deu cabelos lisos e morenos, quando, na verdade, somos louras onduladas ou ruivas de caracóis ou castanho-acaju com madeixas negro-azevinho, corrijamos essas falhas divinas.
Poupar no supermercado, mas gastar à vontade no cabeleireiro, na manicure e pedicure, no gabinete de massagens e de tratamento à pele: cremes hidrantes para rosto, corpo e contorno de olhos, pés e mãos, máscaras capilares, cera para a depilação, que nunca nos faltem!; e mais pinturas, muitas, e suaves, todas elas autodisfarçadas de pele natural, cor natural, tudo natural.
Somos lindas, todas, e não precisamos de nada disso. Mas queremos ser mais lindas ainda, porque não somos comuns mortais como... eles. Somos deusas.

Que nos preocupemos com todas as causas civilizadas do mundo, e que o mudemos, mas que o façamos com baton nos lábios e a pele devidamente esfoliada, enquanto eles bebem bejecas e descascam tremoços na tasca da esquina. Há um planeta para salvar, há pessoas para alimentar, animais a proteger, prisioneiros por libertar, justiça por fazer, em todos os lugares. Façamo-lo sem pintura na cara, como a Angelina Jolie, tudo bem, mas com brilho nos olhos e no cabelo e, pelo menos, um ligeiro gloss.
Se nos vamos acorrentar a qualquer coisa, numa acção qualquer da Greenpeace, durante três dias, que usemos o rimmel à prova de água e os nossos melhores cremes hidratantes.
Tudo, desde que possamos ser aquilo que, na realidade, somos: sábias, poderosas e lindas!

Quanto a vocês, rapazes, este ano, vejam lá se, ao menos, conseguem desencascar esses pés bem desencascados, com pedra vulcânica, e a ver se lhes passam um creme gordo a seguir; desodorizem os sapatos e os ténis, se faz favor, e, já agora, também, o sovaco, se não for muito trabalho; tomem banho com um gel duche perfumado; ah, e lavem os dentes, a seguir usem fio dental, façam gargarejos; vão ao dentista tirar o tártaro, que a cor normal dos dentes não é o castanho; ponham, nas fuças, os cremes hidratantes que vos tenho recomendado, a ver se a gente vos consegue enfrentar com o mínimo de choque psicológico; vocês não são nada de jeito, jamais bonitos, mas, pelo menos, que não cheirem a gasóleo.
Tratem das mãos. Cortem as peles das unhas, se faz favor. E lavem o cabelo com um bom shampoo. Não adianta usar Linic há 15 anos. É o Linic que vos anda a fazer caspa. Se têm caspa, esqueçam, nem vale a pena olhar para uma menina, pensar sequer numa menina. Desenrasquem-se. Tratem-se, que vocês estão ainda em estado muito palafítico - embora, desde que o Mundo Perfeito existe, se tenham registado alguns progressos.
E leiam uns livros. Vão ao cinema. Cultivem-se, que nós detestamos homens burros. E por favor, não nos venham falar de ciência, das ondas não-sei-quê e dos gastrópodes - a quem é que isso interessa? Arte, arte; cinema, literatura, bailado, música, política nacional. Futebol, nunca. Nem automobilismo. A quem é que isso interessa?
Pensem, façam palavras cruzadas, sudoku, qualquer coisa que vos dê destreza mental, sei lá, já ouviram falar na regra de três simples: se isto dá aquilo, aqueloutro vai dar, de certeza absoluta, x. Simples. Lógica.
Lindos meninos! Vá, sossegadinhos!

Pronto, agora podem todos ir vestir as roupinhas novas abrilhantadas a lantejoulas e começar já a embriagar-se e a estragar o arranjo todo, fazendo todas aquelas asneiras de que se vão arrepender amanhã, e, em alguns casos, o resto do ano.
Eu, a Alma e o Cê-Bêzinho também já estamos vestidos para sair. Deixo foto tirada, agorinha mesmo, no tlm de terceira geração.
O Cê-Bêzinho leva a tanga Calvin Klein que lhe ofereci no Natal. Azul-céu.
A Alma vestiu a lingerie azul-ultramarino, toda em translúcido rendado.
Eu, eu sou a Isabela, senhores...
Bom novo ano para todas e todos, minhas muito queridas meninas e meus adorados trambolhos mal jeitosos.
Para o ano, o mundo vai ser perfeito. Promessa de Isabela!



Isabela, Cê-Bê e Alma, por esta ordem, da esquerda para a direita (foto actualizada).

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Como eles me "vêem"! - V















A Isabela que Kyler me fez ver: 42 anos; olhar penetrante; ruga – linda – ao canto dos lábios quando sorri; maternal, mas sem filhos; sexy; e de esquerda...

Foi difícil. A Susan Sarandon não tem 42 anos, e é mãe; no entanto, nenhuma outra figura se encaixava tão bem na (minha visão da) tua visão de Isabela!
Susan Sarandon é das minhas actrizes preferidas; acho-a lindíssima, inteligentíssima, tudíssimo, por isso, esta encomenda vai muito pouco imparcial. Seja.
Esta é a tua Isabela, Kyler. Não ficas mal!

Fé inabalável

Cri. Quis crer. Eu cri.
Repito tudo outra vez.
Eu creio.

O que disse quando disse amar

I

Queria uvas brancas, muito doces, e tu trazias-mas sem que tas pedisse, e diospiros, também; tu trazias, adivinhavas; e eu beijava-te, dizia-te, amo-te. Eu amo-te.

II

Não és a rainha, dizias-me, aprende a esperar, sabe esperar, porque tu não és a rainha. Sim, eu sabia. Não me ralhasses mais. Porque eu te amava.

III

Enlaçava-o, aconchegava-o nos braços, beijava-lhe a cabeça muito querida, enquanto o enroscava no meu colo, e amo-te, sabes que eu te amo, não sabes? Olha para mim, sabes isso, que eu te amo?

IV

Apertava o seu tronco contra o meu corpo. Não, era o meu corpo que se movia, se esmagava contra si. Apertava-me contra o seu corpo. Os braços, quase esgarçados, não chegavam para a cingir; encostava o rosto à casca lisa, e a textura baça coçava o meu rosto, e amo-a, amo-te, pronunciava. Era só um sopro. Só tu ouvias as sílabas que o meu corpo, não a boca, soltava para ti.

V

Rojava-me nas pedras lisas, no topo; mornas do sol de inverno; estendia-me ao comprido, recebendo a luz. Esfregava nelas as ancas, as coxas, largas, a barriga tão fértil, enquanto amava, amava, sim, eu amava.

VI

Amo. Ouvia-me dizer. Repetia. Amo-te. Quando dizia muitas vezes que te amava, quando beijava devagar, repisando amo, amo-te, como uma oração, só para ti, obrigando as sílabas a desenharem-se nos teus lábios moldados à articulação dos meus, desejei que bebesses, não esse amor, ensalivado, que não o conheço, mas que pudesses sentir o longo pano de flanela do meu amor singular, sinestésico, que te tocou uma só vez, uma única vez - nunca mais.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...