domingo, fevereiro 05, 2006

O amor

O amor e o logro correm no mesmo curso. Só o desejo é imune à moral, à cultura e às correntes literárias. E, portanto, ao engano. Porque não responde senão ao seu próprio nome.

Não jures

Não jures o amor. Não está nas tuas mãos prometer o que não te pertence.

O amor que não existe

Avisaste-me, "eu não valho nada", e não acreditei.
Afinal, tinhas razão, mas para os meus olhos, meu amor, não foste pior que qualquer outro.

sábado, fevereiro 04, 2006

O real e a palavra

A palavra fabrica a realidade. O real existe no silêncio, mas é a palavra que o exprime e torna perceptível. Uma existência privada do usufruto verbal, enquanto emissora ou receptora, não possui acesso a um mundo inteligível. Não o compreende, não pode recebê-lo, não pode devolver o pensamento criando novas realidades.

A palavra é a coisa, mesmo na ausência do objecto. A palavra é a terra. Frutifica, constrói. A palavra é o fogo. Trespassa, esmaga, destrói. Não precisamos de bombas para matar, basta-nos a palavra. Digo “bomba”, e morrem setenta pessoas. A última arma inventada é de todas mais simples, e os custos de produção são nulos: a linguagem verbal.

A este propósito, uma história que contei, há dias, numa caixa de comentários de outro blog: tive, em tempos, na mão esquerda, uma cicatriz que a atravessava na diagonal. Um rasgo escuro sobre a pele. Um salpico de óleo a ferver, enquanto fritava rissóis. Perguntavam-me, com frequência, o que tinha sido. Um dia, farta da enfadonha história real, “estava a fritar rissóis...” resolvi brincar com o assunto, e inventei um contexto que me pareceu inverosímil. Gosto de gente feliz ao meu redor.
“Quando era criança, acompanhando o meu pai numa caçada aos cudos, em Manjacaze, fomos subitamente atacados por um tigre esfomeado, que vigiava a mesma manada. Fui a presa seleccionada, por ser a mais frágil, mas a fera, antes de cair abatida por um tiro de espingarda, alcançou-me, ainda, derrubando-me com uma patada que me rasgou a mão. Esta é a marca!”
Disse isto com ar normal, e sem drama, não me ri. Um humorista não se ri das piadas que conta, ou a anedota não resulta. Quando acabei a história, e pude apreciar o silêncio dos ouvintes, não tive coragem de me desmentir. Não por mim, mas porque seria decepcionante. Admiravam-me.
A partir desse dia tornei-me uma pessoa respeitada. A cicatriz feita pelo óleo quente dos rissóis tornou-me alguém. Eu tinha enfrentado a morte e sobrevivido.
O meu pai foi realmente uma vez, que me lembre, à caça de cudos, perto do Xai-Xai. Não chegou a disparar a arma. Mulheres e crianças ficaram nos carros. Os homens regressaram de mãos vazias. Nunca vi um tigre na vida, a não ser no Jardim Zoológico.
Infelizmente, com o tempo, a mancha desapareceu.



Poemas de Teresa, 6 anos

se uma rosa implodir
não se pode olhar essa luz
de frente
sem os óculos
do eclipse

e no entanto
uma rosa não
é mais que a água
das nascentes
de junho

em cada uma
das pétalas
adormece
uma outra rosa
incandescente

depois de tudo
em cada uma das mãos
haverei
de ter
uma pétala

Madrugada

Um dia perde-se o mundo. Não a vida; o mundo.
Não é a tragédia. É possível viver sem terra debaixo dos pés, sem abrigo ou agasalho. Respira-se. O sangue circula, mais rápido, ou não, sem que se pense nisso.
Perder, acorda-nos totalmente. Açula uma fome que sabe esperar, e tem fome.
Quando se perde o mundo, é preciso aprender nova língua; amassar barro com palha, que se seca ao sol; abrir caboucos; erguer novas paredes. O tempo demora; ficamos suspensos. Pensamos que a vida não começou; ansiamo-la ainda. Mas erguer os muros caídos, esse momento tão inseguro, é já o novo mundo. O princípio do mundo. E não há mais nada.


Dorothea Lange, Migrant Mother, 1936

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Para que servem os homens

Corre por aí a ideia de que os homens sabem cozinhar. Depois eles acreditam, e ensaiam aquilo a que chamam petiscos, ao fim-de-semana; sempre variantes do mesmo, normalmente carne embrulhada em natas com pimenta ou em cebola com piri-piri, para acompanhar as Super Bock.
Corre por aí a ideia de que existe uma nova geração de homens mais civilizados. Não sei onde foram buscar tal ideia peregrina! É verdade que prestam mais atenção aos filhos: banho, janta, deita. Porque eles, agora, só pertencem aos seus filhos, de resto, nasceram selvagens! Na generalidade, continuam a acumular a mulher de casa com a da rua; a meter-nos os cornos com as amigas, as deles e as nossas, protegendo-se com o emprego e os compinchas; e marcam as suas reuniões de machos para falar, com estardalhaço, de carros que não servem para nada de útil, a bola do costume, e gajas, gajas, aventuras com gajas que eles supostamente conquistam com um estalar de dedos. Não são operários da Setenave, mas meninos de 20 anos, licenciados nas melhores universidades, saídos dos escritórios da praça, uniformizados de fato e gravata comprados nas mesmas lojas, todos das mesmas cores.
Antigamente, os homens, mesmo os mais marialvas, tinham utilidade. A gente dizia-lhes, “o ferro não aquece”, e eles, mesmo que fossem pasteleiros, respondiam “ah, isso é o termóstato”, ou então, “deve ser a resistência”; pegavam nas ferramentas, desmontavam o electrodoméstico e punham-no a trabalhar, mesmo que sobrassem peças na operação de remontagem. Gozávamos, mas faziam alguma coisa. Agora, se se estraga uma fechadura, mandam-nos chamar o técnico. Alguma vez, antigamente, um homem mandava chamar um técnico?! Homem que era homem desenrascava tudo numa casa, começando numa cozinha e acabando nos caixilhos das janelas. Não sabiam, mas punham-se a isso. Eram curiosos; engenhocas. Uma mulher podia andar mal servida, mas, ao menos, tinha o Mc Gyver em casa. Agora, temem magoar as mãos, estragar em pele, danificar o objecto; não sabem! Não estão para isso!
Se uma mulher não pode contar com um homem para lhe arranjar o esquentador e desentupir o cano do lava-louças, já para não falar em levar o carro à revisão, e à inspecção periódica, qual é vantagem em ter um, em permanência, dentro de quatro paredes?


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...