quarta-feira, maio 31, 2006

Abraça-me e beija-me

(III da série "O que me comove")


Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.


Jan Saudek, The Shelter, 1963

Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me fixamente e sorriu. É uma menina tão linda e doce! Eu sorri, perguntei-lhe o nome, e apaixonámo-nos à primeira vista. Sou uma menina grande e, ela, uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro, mas não tive tempo para reparar.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:

- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.

segunda-feira, maio 29, 2006

Esperei todo o dia pela noite

Os dias varados pelos ruídos da rua: buzinas que chamam alguém, insultam alguém; ambulâncias que levam mais um; os que sobem e descem, infelizes; as crianças que gritam por nada, dentro e fora de casa, do carro, do café, da escola; os gritos de todos ao mesmo tempo, em todo o lado, a mil quilómetros de distância; os cães que ladram enervados; o chiar dos travões no alcatrão; as motas sem escape que explodem a cada arranque; a capa de açúcar do gelado que ouço quebrar-se contra os dentes de uma jovem namorada, na esplanada; as garrafas de cerveja partidas e os gritos altos do subúrbio, como num espancamento; o suor excitado, sem explicação; a ânsia, a ânsia de qualquer coisa ainda inteira, qualquer coisa um bocado melhor.
Poder entardecer em casa esperando o silêncio da noite alta. Muito oxigenado, o silêncio, flutuando na noite quieta.

Não se sai vivo de sítio nenhum

Na outra vida tive um gato chamado Bolinhas. Periodicamente, fugia pela janela da cozinha, e desaparecia durante semanas, meses. Regressava magro, sujo, em sangue, sem uma orelha, falto de unhas, com o rabo cortado, chamuscado e zarolho. Miava à janela por onde tinha saído, abriamo-la, e entrava lento e moribundo, perante a nossa incredulidade. Demorava a recompor-se. Quando ia, nunca davamos pela partida, nem sabíamos se regressaria. Nunca soubemos, e foi assim durante anos.
Depois veio a guerra, ou seja, a Frelimo, e os gatos ficaram abandonados em Lourenço Marques. Disseram que os pretos os comeram. Os gatos e os cães que os brancos deixaram para trás, não os contentores com a mobília de pau-preto nem os cinzeiros de pé alto, em pau-rosa, ou os dentes de marfim, em marfim, foram todos comidos pelos pretos e pelos chinas e pelos monhés, que deviam ter atentado nos seus hábitos alimentares, porque a carne, mesmo magra, faz subir o colesterol.

Parir de gatas

Gostaria de parir como as vacas do meu avô: no pasto, toda alargada em cima da terra e das ervas; ou no curral, refastelada numa cama de palha nova. Ou de cócoras, agachada; ou sentada no bordo de uma boa cadeira a cujos braços me prendesse com toda a força quando tivesse de puxar para expulsar, gemendo. Ou na banheira, com a água a 38 graus; ou numa cama larga com lençóis brancos de algodão; ou no chão, para que pudesse movimentar o meu corpo como sentisse que precisava movimentá-lo. Quereria ao meu lado as mulheres que já tivessem parido, como eu paria; motivassem-me a ter força, a fazê-la, que estava quase. E que me aturassem tudo quando clamasse que queria desistir, e que era a primeira e última, e todas aquelas frases que as mulheres desesperadas dizem no meio do choro e do parto.
Não me mantivessem presa a uma cama de hospital, numa sala desconhecida e impessoal, com cheiro a Betadine e éter, as pernas abertas e apoiadas, ao alto, nos estribos; ligado, o meu corpo, a frascos de que me desceriam tubos às veias; a máquinas cujos fios se colariam a mim; o foco de luz incidindo sobre a racha inchada que me rapariam, e, depois, rasgariam, sem poder mudar de posição, sem um rosto dos meus rostos, eventualmente um companheiro igualmente desesperado.
Em situações de gravidez normal, deveríamos parir como os outros mamíferos. Agachadas, de gatas. É a posição em que nos colocamos, por instinto, quando sentimos aquilo a que se chama dores de barriga. Ajoelhamo-nos e dobramo-nos, enquanto nos abraçamos.
As formas de parto natural acima referidas são praticadas em hospitais do Brasil e em Espanha, como forma de humanizar o nascimento, reduzindo o stress, logo, a dor e o medo. Há hospitais equipados com salas multifuncionais, adaptáveis às necessidades da grávida.
Estas podem escolher, conforme a fase do parto em que se encontram, caminharem pela sala, permanecerem sentadas ou deitadas no chão, ou numa cama, ou numa banheira com água quente. Decidem em que momento devem passar de um lugar para o outro, conforme precisam de mais ou menos ajuda, conforme sentem mais ou menos dor, e controlam elas o processo, acompanhadas pela doula ou parteira ou médica e família.

Trata-se de trazer para o hospital o ambiente do parto caseiro, beneficiando dos equipamentos hospitalares.



Qualquer destes métodos/posições facilita o posicionamento do nascituro e a postura física da mãe. Adaptam-se os dois corpos: um, à estreita passagem; outro, ao corpo a que abre passagem. É um trabalho dos dois, em que dois se sentem e compreendem em silêncio. Ele quer sair, ela ajuda-o. Ele ajeita-se. Ela ajeita-se. Os corpos criam as condições para o inevitável milagre.


Só recentemente ouvi falar das doulas, mulheres que se especializam em acompanhar a gravidez e o parto, substituindo a família próxima, que antigamente ajudava a parturiente. As doulas podem ajudar a criança a nascer em casa, ou estar presentes no hospital, no momento do parto. Em gravidezes normais, sem risco, as parturientes podem escolher uma doula que a acompanhará ao longo da gravidez, e a ajudará a parir naturalmente, em casa. Deve, contudo, salvaguardar-se a necessidade de chamar com urgência um médico previamente contactado, caso surjam complicações, ou mesmo, enviar rapidamente a parturiente para o hospital mais próximo.


O objectivo é "humanizar" o nascimento, aproximando-o da sua natureza animal, intuitiva; portanto, num sentido literal, trata-se de uma desumanização. Torná-lo acto intimíssimo de uma gravidez que não termina no momento em que o recém-nascido respira o mesmo ar da mãe. A gravidez culminou naquele momento, mas continua nos meses seguintes, porque o bebé e a mãe continuam a ser um do outro, a estar um dentro do outro, a ser um só, ligados pela boca, pela mama, pelo leite que os atravessa e os liga por dentro, como um novo cordão umbilical. A gravidez termina muito tempo mais tarde. Quando o bebé se equilibra sentado, quando pára de mamar, quando consegue dizer as primeiras palavras, e começa a dar os primeiros passos. Talvez vá mais longe: a gravidez não termina nunca, mas há um momento em que é preciso deixá-los ir.

domingo, maio 28, 2006

Desinfecções e feridas

A fobia à bactéria não é normal; dá-se demasiada importância ao bicho.
Eu cá, tenho aversão a ambientes muito desinfectados. Um espaço normal tem de ter as suas comunidades de bactérias e ácaros escondidas em qualquer vão. Infeccções por tudo e por nada, e mais alergias, são uma modernice insuportável. Antigamente não havia alergias; tenho muita pena mas não havia. Tínhamos umas borbulhagens atribuídas a qualquer insecto que tivesse passado pela roupa da cama, normalmente uma centopeia ou aranha venenosa, ou então era dos sangues ou do mudar da folha, e ponto final. Se não era nada disso, era pulga. Agora até as minhas cadelas são alérgicas às pulgas!
Quando fazíamos feridas desinfectavam-se com água oxigenada, passava-se mercurocromo, e polvilhava-se com sulfamidas. Deixavam-se ao ar para criar a crosta, que depois se coçava devagarinho, à volta da pelezinha nova, querendo arrancar, levantando um pouco, mas não chegando a tanto, porque a crosta estava ainda colada à carne viva por um coração de sangue; e era um prazer. Fechávamos os olhos. Coçar à volta da crosta, pressioná-la um pouco contra a pele por baixo, já sarada, muito fina, era um prazer tão intenso que sentíamos crescer água na boca. Antigamente dava gosto fazer uma ferida.

sábado, maio 27, 2006

Patriotismo

A bandeira nacional serve, como é do senso comum, para pendurar nas varandas e nas janelas, e esticar nas empenas, quando a selecção da bola marca golos à Inglaterra e à Holanda -- e para arrear, acto contínuo, se um improvável e inverosímil país como a Sérvia-Monte... monte quê?, nos arruma com duas batatas a seco.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...