quinta-feira, junho 29, 2006

Como avaliar os professores malucos?

Nunca conheci um professor que gostasse de avaliar; é ingrato; quase sempre injusto. Mesmo em ciências exactas é difícil avaliar justamente as aprendizagens. Um bom aluno pode mostrar-se incapaz de realizar um exercício específico, e ter aprendido muito mais do que qualquer outro, globalmente; ser excelente. Por isso, classificações obtidas numa situação de avaliação nem sempre reflectem a aprendizagem realizada. Os professores sabem-no; o ministério sabe-o e, anualmente, emana despachos normativos e circulares inúmeras aconselhando moderação, ponderação, discussão das classificações, que são apenas sugeridas pelos professores das disciplinas, e aprovadas, ou não, pelos conselhos de turma.

É difícil garantir que o aluno da carteira da frente vale exactamente 3 quilos duzentos e cinquenta, e não mais nem menos. A aprendizagem tem portas do cavalo que a avaliação não consegue quantificar. Numa aula, acontece não se aprender o tema da lição, mas outro assunto que não se tinha compreendido antes, no qual não se tinha pensado, ou no qual se vinha pensando sem solução. Faz-se luz de repente. Foi uma aula inútil?
Um bom professor produz este tipo de conhecimento. Flexível. Activo. Crítico. Multidisciplinar. Autosuficiente.

Os alunos de 20 não são necessariamente os mais capazes, mas não é possível negar que sejam quase sempre exemplarmente organizados e disciplinados; cumprem as regras; apresentam soluções convencionalmente certas, mas nem sempre resplandecem, voam. Frequentemente estão presos ao chão com uma cola toda feita de ordem, medo e obediência. Sabem definições de cor. Datas. Fórmulas. Memorizam a gramática de uma ponta a outra, os compêndios chatos, e sabem distinguir conjunção de locução conjuncional. Quase sempre se portam muito bem. Não têm grande sentido de humor. Nem sempre são criativos, mas produzem moeda-classificação. Ouvem-na cair.


Marcovacca, Angola

Os professores do sistema, sentadinhos na secretária, com seus fatinhos de saia e casaco de fazenda azulinha ou de calça e casaco, cinzentinhos, as mãozinhas brancas de dedo curto com aliança, muito graves e científicos, gostosamente entalados na forma canónica, e incapazes de sair dela, sempre me causaram... borbulhagem.

Gostava dos professores faltistas. Dos que passeavam entre as filas de carteiras enquanto diziam lérias, e a quem chamávamos malucos, mas a cujas aulas íamos com gosto. Daqueles que a gente nem sabia em que parte do programa é que iam.
“O que é que o gajo tá a dar?” “Sei lá, deve ser o barroco!” “O barroco não pode ser, que já demos o neo-realismo!”
Gostava dos que diziam “merda, molhei os sapatos lá fora” ou “hoje estou cheio de gases”, e nos mandavam ler textos sérios pejados de asneiras, divertindo-se com o escândalo entre as meninas: “Tes... ai, tes...tí... bem... posso ler isto?, ai, testí... ti... culo, ai, este texto... “.
Gostava dos que se sentavam em cima da mesa a falar sozinhos, despenteados, com mau feitio, e nos ensinavam coisas que a linguagem não contém. E que aprendiam coisas para si enquanto falavam. Estabeleciam uma relação em que não haviam pensado antes, “pois é, pois é”.

Mandavam-nos ver filmes que não eram para a nossa idade e ler livros terríveis. Não creio que seguissem programa, que tivessem planificação, que fossem a reuniões. Não tinham. Chegavam, mandavam umas bocas, dissertavam, divertiam-se que nem uns malucos e quem lhes tirava aquilo, tirava-lhes a vida.
Nos testes ditavam-nos as perguntas, inventadas na hora, e não dava para copiar, embora até pudéssemos... aquilo não estava escrito em lado nenhum.
O que eu aprendi com esses malucos sem método algum, que nunca na vida foram avaliados! Que não poderiam ser avaliados. Porque um bom professor não se avalia. Não é possível quantificar o que ensina.
O que eu aprendi a não apodrecer de medo, a pensar mal, mas a pensar, para depois pensar melhor.
A esses professores, esses que eu tive, os faltistas sem método, haviam de lhes aplicar o próximo sistema estatutário de avaliação do desempenho, o tal que o governo vai aprovar com a benção da opinião pública que manipulou com total consentimento das redacções. Chumbavam todos! Era vê-los a cair que nem tordos! Hoje, seriam maus. Nem passavam na entrevista.

A avaliação tornou-se uma obsessão. Como avaliar tudo? Como avaliar um professor? Quanto vale? Quanto pesa? Quanto mede? Como posso ter mais sucesso igual a ter mais dinheiro? Quanto?
Ridículo. Ridículo. Daqui a 10 anos a educação estará na mesma. Pior. A crise na educação não assenta no funcionamento das escolas, mas no da sociedade.
A maior parte das crianças chega hoje à escola sem saber o que são valores, ou quais são. É um discurso perdido, que não falam em casa, onde tudo é permitido. Não sabem que não podem sair de uma sala quando querem, porque desconhecem o conceito de regra. Não sabem o que é "isso do respeito". Os professores não conseguem dar aulas porque não conseguem ser ouvidos. Não têm poder para agir, para pedir silêncio.
Daqui a 10 anos a educação estará pior. Os melhores hão-de ser tão robotizados que preferiremos os piores.
É que o problema da educação não está na escola nem nos professores que, como noutras profissões, e em todos os tempos, foram bons e maus.
A crise da escola é o espelho de uma crise social profunda: nada vale nada - apenas o dinheiro e o sexo.

Zelenje, Niassa, Junho 2003

terça-feira, junho 27, 2006

10 milhões de "imeis" à borla

A minha mãe, 82 anos, reformada com 200 e picos euros, doente de todas as doenças do catálogo das doenças, dependente de mim para ir ao médico e ter mercearias em casa, e tudo, pediu-me para agradecer aos senhores tão gentis que agora lhe ofereceram um endereço de "imei", só para ela, nos CTT, e manda perguntar:
- o que é um" imei"?
- pode receber a reforma por "imei"?
- se não for abrir a caixa de "imei" que lhe deram, porque lhe custa apanhar o autocarro e vê muito mal, e não consegue ler as letras pequeninas, e faz-lhe confusão aos olhos, pode ser multada?
- pode guardar na caixa de "imei" um cordão de ouro com muitas voltas que herdou da bisavó e há-de um dia ser meu, para que o guarde mais 200 anos e passe a outra desgraçada qualquer, e que ela tem medo de guardar em casa?
A minha mãe agradece muito e não quer desobedecer à lei.

Admirável consumo novo

Primeiro foi o caos: umas máquinas de calcular do tamanho de arcas congeladoras, de máquinas de lavar roupa industriais, com rolos de gravação largos e longos como películas de celulóide de 6 horas, como o Amor de Perdição, do Manuel de Oliveira.
Depois passaram muitos anos, e foi a disquete. A disquete grandalhona que se formatava antes de poder usar-se. Depois, a partir da disquete grandalhona, e com menos capacidade, que sozinha não medrava nem ajudava a medrar, Eles criaram a disquete pequena. Foi preciso adquirir computadores com novas portas. A disquete pequena fez a sua carreira, transmitindo vírus de computador em computador, que também se foram tornando cada vez mais pequenos e não adaptáveis a novas máquinas de impressão. As portas de ligação tornaram-se incompatíveis e comprámos cabos de adaptação ou, melhor, novas máquinas.
Depois Eles trouxeram-nos o cd-rom. O cd-rom evoluiu e diversificou-se; uns só se podiam usar no computador, outros podiam ir à aparelhagem audio e ao dvd. Cd-roms de todos os tamanhos e para todos os usos.
A seguir, Eles convenceram os nossos patrões de que a produtividade melhoraria com novo software que precisaria de novo hardware, e as máquinas no trabalho deixaram de ter porta para disquete; vimo-nos obrigados a adquirir novas máquinas pessoais para transportar documentos em cd do trabalho para casa e vice-versa. Porque as pessoas que trabalham 35 horas por semana levam trabalho para casa, onde cumprem mais 35 ou 50. O que for preciso para comer. Porque estamos em plena Revolução Global do Capital Liberal Digital.
Tudo o que tínhamos em disquete se perdeu, porque a maior parte dos amadores não possuía conhecimentos para conseguir transportar o conteúdo de 682 disquetes para computadores sem a respectiva porta.
Depois, Eles mudaram outra vez as máquinas de impressão e criaram a pen. Um acessório que todos podemos trazer ao pescoço, com a nossa vida devidamente empacotada, compactada. A pen não se parece com uma esferográfica ou caneta. Consiste num pequeno objecto de diferente formas, que se introduz no cérebro do computador e permite que ambos realizem a cópula divina da transmissão de dados. O nosso maior problema não é não termos dinheiro ao fim do mês, não é roubarem-nos os direitos humanos, sociais, económicos, políticos que gerações inteiras conseguiram para nós e para os nossos filhos. O nosso problema é perder a pen (e o mundial de futebol).
Felizmente o meu computador tem entrada para pen. Não tem é entrada para pen, modem e novo sistema de ligação da nova impressora-scanner-fotocopiadora, tudo ao mesmo tempo. Preciso de outro computador. Se calhar.
Se não fosse o ADSL, ainda me servia o primeiro, que adquiri em 1991. Era bom; portátil; custou-me uma fortuna. Mas não aguentava modernices, software pesado, coisas que não uso nem me interessa usar mas que vêm em pacote; e não tinha porta para cd nem pen.
Acho que este é o meu terceiro computador; sou poupada. Comprei-o há dois anos, mas está desactualizado. Não me apetece substituí-lo por nenhum outro enquanto a pen não se tornar obsoleta. Já sei que há-de vir uma porta Matrix - há-de vir um cabo que permitirá a cópula entre o meu cérebro e o cérebro da máquina. Depois logo se vê qual a necessidade de consumo que será criada. Se puder ligar o cabo à orelha ou a uma narina, até mesmo a um olho qualquer, escuso de mandar pôr um cateter na moleirinha. Logo se vê. Mas vai aparecer, disso estou certa. Brevemente. Porque é preciso consumir. Temos de consumir muito.
E temos de ter mais filhos que possam ser bons consumidores. Não temos dinheiro para gastar no consumo de mais crianças, por isso não as temos - porque atingimos o limiar máximo de consumo - mas se não o fizermos seremos penalizados fiscalmente. Quem não consumir, produzindo novos consumidores terá de pagar mais taxas, consumir mais taxas. Consumimos ou somos marginais.
Os Ocidentes deste planeta, mesmo a Oriente, tornaram-se cemitérios de desperdício químico, metálico. Cabos, fibras, plástico, estranhas amálgamas. Objectos grandes e outros mais pequenos. Lixo que nunca antes existiu. Precisamos de consumir muito e de consumir rápido, deitando fora. Não vale a pena arranjar sapatos, nem roupa nem panelas nem electrodomésticos nem chapéus-de-chuva. Não é rentável. Deitar fora, comprar novo, deitar fora, comprar novo, comprar.
Pedíamos que nos arranjassem as calças de ganga gastas entre as pernas? O sapateiro punha meias-solas nos sapatos e cosia-os quando rebentavam? Alguém se lembra? O meu pai arranjava os ferros de engomar e as torradeiras quando as resistências se queimavam? Compravam-se peças de substituição nas lojas? Agora não é possível comprar peças para um Wolkswagen de 1985, a não ser no ferro-velho?
Podíamos viver com menos? Podíamos viver melhor? Não querendo exagerar, podíamos ser mais felizes? Um dia havemos de nos atirar a nós próprios para o lixo e havemos de nos comprar completamente novos? Um dia havemos de ser felizes como um frigorífico?
Não sei se será o mesmo, mas Alberto Caeiro quis ser feliz como um girassol.

quinta-feira, junho 22, 2006


Xu Wen Tao, Human Form Series, nº 5

Sinto o coração. Tenho calor. O sangue corre tão depressa.

Atiro. Fecho. Faço. Não faço. Caio. Não quero. Eu quero, eu quero. Agora vou. Não sei se. Tenho que. Recuso-me. Volto. Vou. Recomeço. Abro. Eu sorrio. Amanhã choro. Estou aqui. Tenho 5 minutos. Sempre 5 minutos para tudo.
A minha vida não é real. Mas vou fazer isto? Ninguém faz isto. A minha vida não é real. Sou uma personagem de ficção que fugiu para o lado de cá. Aquele filme do Woody Allen no qual a personagem salta para a sala e se apaixona por Mia Farrow, não a Mia, a personagem da Mia. Esse. Lembro-me de pormenores estúpidos. Nunca dos nomes. Tremo um bocado. Corro. Tenho de ir. Só 5 minutos e já passaram. Agora vou. É estúpido, mas vou. Como posso eu viver amanhã se não fizer hoje aquilo que não penso por que faço? Atiro-me. Agarro-me depois. Agora desligo o computador. Já me atirei. Já não posso voltar atrás.

quarta-feira, junho 21, 2006

Amo. Não sei amar. Estou cansada. Morro de medo.

Foto de Tamaki Obuchi, 2003

Improvisam-se armas: facas, granadas de mão, beijos prometidos, palavras. A voz.
Amo-te. Eu também. O que dás, o que dou? Não admito isso, quero aquilo. Tens de mudar. Não me chega. Eu quero mais. Desespero por mais. Vou dormir contigo. Vou beijar todo o teu corpo. Depois vais ver. E o amor? Os gestos?! Uma palavra basta. Escreve-me uma palavra. Uma palavra são letras negras. As palavras foram toda a minha vida. Diz-me, então. Amo-te. Quero-te. Amas-me ou queres-me? As duas coisas. Queres um amor platónico? Não, quero todo o amor. Quero fazer amor todos os dias, quero fazer amor contigo. Todos os dias não pode ser. Cansa. Tu vais ver. Vais alimentar-te dos meus lábios. De que me alimentarás tu? Tenho medo. Não vês que estou apavorada? Não, não posso ver-te, estamos longe. Detesto brincadeiras com o amor. Estou cheia de medo. Não vês? Agora não podemos fazer amor. Depois. Não tens nada para me dar. Só palavras do sexo, só palavras do sexo. Estou cansada. Diz-me outras palavras. Diz-me que não podes respirar sem mim, que sou o teu ar, a tua fome, a tua sede. Sim, tu és isso. Mentira. Não dizes o que sentes. Só me queres agradar, calar. Aprende a exprimir o que sentes. Usa palavras para comunicar, não apenas o teu sexo.
Estou cansada. Não quero falhar outra vez. Vou falhar outra vez.
Dá-me um beijo. Dá-me tu. Não. Tu dás primeiro. Se me queres dás tudo. Dás o que te peço, o que tens, o que não tens. Cede. Não, cede tu. Não. Esgotas-me. Nós não temos hipótese. Eu não sou a mulher que tu queres. Arranja outra. Uma que te diga sim. Vem ter comigo. Arranja outra mulher, nós nunca passaremos disto. Arranja uma mulher nova. Uma mulher que ainde acredite. Acredite?! No amor! Arranja uma que acredite no amor.
Não, tu amas-me. Amas-me? Gosto de ti e quero amar-te. Diz-me que vou ser mais importante para ti do que tu própria.
Não posso dizer agora. Não sei se poderei dizer isso. Tens de dizer. Talvez possa, se sentir, um dia. Então, iremos viver cada um para seu lado, não seremos nós, mas tu e eu. Eu quero ser eu. E nós? Também. Mas tenho de ser sempre eu ou serei infeliz.
Não sei. Falamos amanhã. Sim, talvez amanhã. Pensa.
Silêncio. Adeus. Então, adeus.
O amor não deveria ser tão duro. O amor não deveria ser uma luta tão violenta.
Estou cansada.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...