quinta-feira, setembro 28, 2006

Maquiavélico PC perfeito

Um amigo bazófias, apareceu um dia com um telemóvel de 7ª geração, com comando de voz. Sentava-se no café, e dava ordens ao "bicho", animal em fase domesticação, muito surdo, em voz alta, pausada; dizia: "queres ver o que vai acontecer agora, queres ver", e soletrava, gravíssimo: "A-na-be-la-Cam-po"; a máquina "ouvia", fazia uns cálculos, e, em poucos segundos, mostrava no visor o resultado de tão laborioso comando: "chamada em curso para Daniela Gambo".
Ficava danado, desligava logo, e rematava, "agora não foi a sério, não lhe apeteceu (ria-se a disfarçar!), mas, há bocado, o gajo fez isto mesmo bem!"

Esta história ocorreu-me, porque gostava de ter um pc com comando de voz ao qual eu pudesse ordenar:
"vai-ver-o-proxy-conserta-tudo-mesmo-sem-minha-ordem-põe-tudo-a-funcionar-sem-defeito!

E ele fazia, sem se enganar. Esta madrugada, por exemplo. Só tinha medo que ele se revoltasse, um dia, sei lá!
Um dia muito, muito, muito distante. E começasse a ler-me nos lábios.

Procurar; não resistir

O que me fascina no palhaço, enquanto símbolo, não é o facto de ter de subir ao palco, e fazer rir, porque the show must go on, no mesmo dia em que lhe morre a mãe, o bairro arde, o cancro lavra no pâncreas por mais duas horas apenas, e puf!; o que me fascina no palhaço é ser incapaz de não ir, incapaz de não rir, e fazer rir, mesmo que pudesse.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Eu também sou lésbica


Um filme sobre lésbicas é para mim tão escandaloso como a sopa de nabo e cenoura que acabei de engolir - cerca de meio litro!
Ainda nadava na placenta da minha mãe e posso dizer que já tinha estado dentro de uma mulher, onde gemi, mexi a boca e os dedos das mãos e os pés. E gostei, e mantive-me disposta a repetir.
Portanto, para mim, um filme sobre lésbicas será um no qual mulheres que trabalham na nossa empresa, que são da nossa família ou amigas, que se sentam ao nosso lado nos consultórios, e nos transportes, se relacionam como quaisquer pessoas. E depois, de vez em quando, ala para a cama. Mas não estou a ver que passem a vida a esfregar-se contra os azulejos da casa-de-banho do café lá de baixo. As que eu conheço não são assim.

Eu às vezes não sou lésbica; mas às vezes sou, e às vezes tenho cá uma vontade que nem vos digo. E talento.

Agora, quanto à série que aqui me traz, a que passa na 2 a partir das não-sei-quê, e que apresenta bolinha vermelha, e que verdadeiramente mantenho sem som, enquanto vou lendo e escrevendo textos para outra freguesia, pergunto-me porque motivo se intitula A Letra L.
L de lésbica? Não percebo. Só há Lésbicas?! O assunto é só aquele, mais nada?! Séries de lésbicas cuja única ocupação seja foder?
Sim, vejo que fazem pouco mais que... mas podia ser igualmente um A, um B, F, H, I, M ou W, O, K ou R, S, U, X, porque são letras igualmente lésbico-expressivas, ou não?!
Meu Deus, a expressividade da letra B e de um X, no sexo lésbico!

Na série, observo mulheres fazendo amor deitadas, em pé, rebolando-se embrulhadas, esticadas, abrindo-se, fechando-se, dobrando-se. Sempre que tiro os olhos dos relatórios e olho para o écran, há alguém em cima de alguém, entusiasmadíssimo, uma perna no ar, uma mama de lado, uma espalmada noutra... enfim, não tenho nada contra, juro mesmo, só inveja, mas... não fazem mais nada, não lêem relatórios como eu?! Não trabalham?! Ser lésbica é só foder, trocar de parceira, arranjar relações geométricas descritivamente mirabolantes? É que também quero! Quero já, digam-me por favor onde me inscrevo, onde assino por baixo?

A partir de hoje quero ser lésbica.
Sou lésbica, volto assim às origens, e não se fala mais nisso.

Ontem, olhei, e estavam umas a foder contra o vidro do tanque principal do Oceanário, com as sardinhas a passar em cardume, ao fundo, e fiquei preocupada com aquilo. E se o vidro se parte? Gastou-se muito dinheiro com o Oceanário, meus amigos, não é para estragar e matar peixinhos!
E pior, pus-me a olhar, e pareceu-me que a mulher de costas, uma que estava a esmagar uma doce menina contra o vidro do Oceanário, coitadinha, era muito, muito masculina; mas eu sou tão míope, e então pus-me a olhar um bocado melhor, porque aquela cena nunca mais acabava - também passaram os tubarões, e as raias, e os peixes-espada, deu para ver a fauna piscícola quase toda! - e descubro, muito de relance, que a mulher masculina era um homem!
Um homem?! Então mas as lésbicas fazem-no com homens?
Se querem que assine, vamos lá ver, ou sou lésbica ou durmo com homens, vamos lá a ver... agora as duas coisas...
Isto é que deve ser o fim do mundo como dizia a minha avózinha de quem nunca vos falei, a que me ensinou, mas eu esqueci, a história do meio-pinto.
Enfin (leia-se à francesa)!


(Postei imagem de umas meninas todas bronzeadas, e ao molho, embora não veja nada na caixa de edição nem no blogue - continua a trabalhar-se às cegas, por aqui! Valha-nos o texto!)

Casas Bentas em Portugal


225º sessão - nova fase... mas ainda o mesmo julgamento, que ficará conhecido na história nacional como o Caso da Casa Santa, ou da Casa Benta ou do Casa Cruz.
Nos exames que admitam resposta do tipo americano, estas três opções serão usadas para confundir os alunos.

(Espero que estejam a ver uma notícia do jornal Público, como ilustração, porque eu ... nada!)

segunda-feira, setembro 25, 2006

E agora acordei


Os comboios deviam apitar sempre duas, três, quatro vezes antes de chegar a cada estação ou apeadeiro, para nos acordarem, para termos tempo de nos recompor, para escavarmos no peito a coragem de lembrar - querendo-nos tanto, e de olhos abertos, com os farnéis partilhados, destapados sobre os joelhos - que nos queremos vazios e fortes, como se já tivéssemos 60 anos.


domingo, setembro 24, 2006

A culpa foi do comboio



Que nessa altura ainda tinha aquela paragem em Casa Branca, Alentejo.
A gente meteu-se à conversa, partilhámos os farnéis, depois tu viste que eu sabia falar latim selvagem, e leste-me uns poemas do Bocage, mas sem asneiras, e apaixonaste-te, porque eu me apaixonei de repente; não estava previsto e a gente não se controlou.
Foi uma desgraceira para o resto das nossas vidas, sempre a pensar no mesmo, e zero concretização. Porque o comboio nunca mais parou em Casa Branca e, para além disso, a gente nunca mais andou de comboio.

Amor com fronteiras

Para meu bem, e do grande amor verdadeiro, a gasolina está caríssima, bem como o preço das portagens, e uma noite num bom hotel de charme, discreto e romântico, custa o mês de ordenado de qualquer operária de bairro da lata.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...